“No passado dia
31 de outubro, houve um membro desta família de Economia que ficou para trás.
Se calhar esta nova geração que passeia pela EEG não teve oportunidade de o
conhecer, mas quem já por cá andava há alguns anos sabe bem de quem se trata.
Por isso, foi-me pedido para dissertar sobre o João Pedro, a sua presença e
significado no curso. É a sua memória que este texto pretende honrar, e o
legado da sua passagem no curso.
O João Pedro
entrou na Universidade do Minho no ano lectivo de 2009/2010, e foi o curso de
Economia que o acolheu. Embora tenha preferido não fazer parte da praxe, integrou-se
bem toda a gente do seu curso o conhecia e falava com ele normalmente. Ele
próprio admitia não ter sido talhado para tal experiência, mas nunca se tornou
antagonista de quem gostava da praxe e sempre se deu com todos, colegas e
doutores. O João brincava com tudo e todos, e era raro alguém conseguir escapar
às suas míticas respostas, a cada boca que lhe atiravam. Conseguia dar-se bem
com toda a gente e era apreciado pela grande maioria dos seus colegas.
No ano a seguir,
fui eu que entrei no curso. Lembro-me do João como sendo a primeira pessoa que me
falou diretamente. Foi ele quem me recebeu e integrou no que era na altura o
curso de Economia, logo na minha primeira viagem de autocarro da linha 42,
direta entre a Residência de Sta Tecla e a Universidade que agora já nem
existe.
Foi ele quem me mostrou
o que a residência tinha para oferecer e, apercebendo-se que eu estava só e sem
conhecer ninguém, não teve problemas em acompanhar-me e mostrar-me o que viria
a ser esta minha nova vida, adulta e independente. O João era mesmo assim, esse
tipo de pessoa, de sorriso no rosto e sempre pronto a arranjar companhia.
Foi também,
infelizmente, no final desse ano lectivo que se descobriu que tinha uma merda de
uma doença que o iria afastar da universidade. Claro que para ele, isto seria
sempre temporário. E foi assim, que no ano 2011/2012, em vez de se preocupar
com micros, macros, finanças entre outras coisas, o João lidou de forma quase
diária com sessões de quimioterapia, drenagens, e outros assuntos do género.
Não foi fácil. Custou-lhe imenso. Mas desenganem-se, pois não foi por isso que
alguma vez perdeu o seu típico sorriso. Para ele, o tempo passado no IPO do Porto
era apenas uma contagem decrescente para o seu regresso. Aos
curiosos, só para terem a noção do quanto isto era verídico, fiquem só a pensar
que nesse mesmo ano o sujeito veio marcar presença no Enterro da Gata, mesmo
estando ainda de muletas!
E tal como
sempre tinha avisado, conseguiu, de facto, acabar por regressar. Um ano e uma
semana depois de ter iniciado o seu tratamento, regressou como prometido a
Braga. Desta vez numa casa nos prédios amarelos, regressou com uma vontade
feroz de viver. Quem o conheceu na altura sabe que apesar de continuar a tentar
e esforçar-se, os seus estudos ficaram um bocado com um pé atrás. Com ele,
havia sempre coisas mais importantes a fazer. Seja parar no Gota para jogar um
pouco às cartas durante a tarde, a ir “tomar café” à noite. Inícios de tarde
que passavam a tardes inteiras e cafés que se transformavam em B.A. pela noite
adentro, o João era um jovem que, por várias adversidades, rapidamente se
apercebeu da importância que viver a sua própria vida tinha. Para ele, era
claro que isso ia muito para além de colar em livros a tempo inteiro. O seu
bem-estar tornou-se na sua prioridade e viveu sempre a sua vida ao máximo,
minimizando tudo o que lhe fosse problemático e desinteressante. Não é que o
João não se preocupasse com o seu futuro… Era só que o presente, dadas as suas
circunstâncias, se tornou sempre mais importante.
O João, na
verdade, chegou a conviver com várias gerações deste curso. Viu caloiros virar
doutores, viu gente a entrar e sair do curso. Viu amigos a graduarem-se e foi
feliz. Conheceu muita gente mas conseguiu manter impreterivelmente a sua
personalidade intacta. Fosse quem fosse, caloiro ou cardeal, o João sempre foi
fiel a si próprio. Essa sua alegria, seu entusiasmo contagiante que enchia
qualquer sala em que estivesse. Fosse no Sardinha, B.A. ou sala de aula, o João
com quem uma pessoa falava era sempre o mesmo.
Desde alunos
mais novos a mais velhos, funcionários, todos que foram tocados por ele e o
chegaram a conhecer têm algo a dizer. A maioria deles têm coisas positivas. O
João até se dava bem com professores, e chegou mesmo a corresponder com alguns
durante os tempos mais difíceis, mesmo aos que lhe davam más notas. Todas as
pessoas que estiveram no seu funeral no passado domingo choraram a sua perda.
Mas este texto
não serve para isso. Não serve para deixar as pessoas tristes. Este texto serve
para que as pessoas que o estão a ler percebam que o maior legado que o João nos
deixou não tem a ver com notas ou com livros. Tem a ver com a forma como ele
lidava com a vida.
Forte e
guerreiro mas sem nunca esquecer o carinho, o sorriso e a palavra amiga, o João
viveu sempre da forma que ele quis, e isso até ao fim. De sorriso na boca e com
o seu tom de gozo, pode ter vivido pouco, mas viveu bem. Deixou uma marca em
todos os que o conheceram realmente e será para sempre lembrado por pessoas.
Essas mesmas poderão até ter futuros diferentes, em áreas diferentes e serem
pessoas diferentes. Para ele, isso não interessava. Para ele, o que interessava
era viver e conhecer gente. Era divertir-se e ser feliz. O resto vinha depois
por acréscimo. A sua prioridade era viver e fazer o que queria, e nisso, sempre
foi bem-sucedido. Sofria com um sorriso na cara porque acreditava que melhores
tempos viriam, e sabia que tinha sempre os seus por perto. Teimava por aquilo
que ele achava ser correto e tentava sempre ser justo com tudo e todos. Podia
até estar errado, mas sempre iria levar a dele adiante, e preocupar-se ia com
as consequências depois.
Pode parecer cliché
dizer que ele nunca quereria ver alguém chorar por ele já não estar entre nós,
mas eu sei que no caso do João isso era mesmo verdade. Todos os que o
conheceram, seja na UM, no Carpe, no Gota, ou em qualquer outro sítio sabe que
é verdade. E por isso, lembrem-se sempre de viver. Vivam com juízo, mas vivam
por vocês. Vivam o presente. Era isso que ele haveria de querer.
PS: O João
tinha-se afeiçoado particularmente à causa da Liga Portuguesa contra o Cancro e
ao IPO e por isso tenho a certeza que gostaria de deixar uma mensagem a pedir
que apoiem estas instituições quando tiverem tempo, disponibilidade e meio de o
fazer."
Julien Vergé
Não querendo alongar mais, apesar de as palavras serem sempre poucas nestas ocasiões, a equipa do Voz gostaria de agradecer ao Julien por este pequeno retrato de uma pessoa que fez parte da nossa "família" e que por razões injustas teve de partir. Digo pequeno retrato (quem o conheceu vai concordar comigo) porque o João Pedro era um exemplo para aqueles que acham que a vida é insignificante e não tem valor. Tinha uma força de vontade e de luta ímpares e nos momentos mais difíceis guardava sempre um sorriso, nunca baixando os braços. Mesmo em condições de grande fragilidade ele nunca se isolava, porque para ele a amizade era fulcral para a sua recuperação.
Concluindo e citando uma frase muito conhecida: "Aproveitem a vida e ajudem-se uns aos outros. Apreciem cada momento. Agradeçam e não deixem nada por dizer, nada por fazer."
Charlie Hebdo
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